VALORIZE-SE  e  CUIDE-SE  BEM :

   Faça  TERAPIA PSICANALÍTICA    

Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese



ARTIGOS sobre PSICANÁLISE . I I

Transtorno Bipolar

A Vida na Montanha Russa

Primeiro a angústia, o desânimo, a falta de vontade de se levantar da cama.

Depois, vêm a animação, extrema autoconfiança, sensação de poder,

vontade de fazer mil coisas ao mesmo tempo.

A primeira impressão é que essas sensações são de duas pessoas,

uma depressiva, outra eufórica.

Mas, na verdade, trata-se do mesmo homem ou mulher

– alguém que sofre de transtorno bipolar de humor,

doença psiquiátrica que atinge cerca de 3% da população mundial,

caracterizada por oscilações abruptas de humor,

com episódios de depressão e de mania ( o oposto da depressão ).

A doença mental está entre as dez que mais afastam os brasileiros do trabalho.

Ocupa o terceiro lugar na lista, depois da depressão e da esquizofrenia,

conforme levantamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),

em parceria com o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde

( OMS ), divulgado em novembro de 2007.

O humor é o pano de fundo da nossa vida emocional.

Normalmente, se acontecem coisas boas, as pessoas ficam alegres,

se acontecer algo ruim, ficam tristes.

Para quem tem transtorno bipolar, a lógica não é sempre essa.

O humor pode oscilar muito e de forma muitas vezes independente

do que ocorre ao redor.

Os acontecimentos influenciam de forma nem sempre previsível.

Se morre alguém, imagina-se que a pessoa fique triste,

mas o bipolar pode entrar numa crise de euforia, ficar ‘ elétrico ’,

ou mesmo irritável e não porque não gostava da pessoa,

mas porque o estresse desencadeou uma instabilidade da doença.

Por isso, o transtorno é imprevisível ”, explica Sérgio Nicastri,

Psiquiatra do Hospital Israelita Albert Einstein ( HIAE ).

Uma das principais evidências de que a doença está relacionada

às reações químicas do cérebro é que os remédios dão resultado.

Entretanto, o mecanismo de funcionamento da doença

é um processo extremamente complexo.

Ainda não há certezas sobre neurotransmissores ou reações químicas

que estejam envolvidas no desencadeamento da doença.

O que se sabe é que alterações da serotonina e da noradrenalina cerebrais

estão relacionadas à depressão e a dopamina

é o neurotransmissor mais relacionado aos episódios de mania.

Gangorra de Sentimentos

Não tinha idéia do que estava acontecendo comigo.

Ia trabalhar todos os dias, mas, quando o ponteiro marcava três horas,

era como se fosse um relógio biológico,

eu precisava largar tudo o que estivesse fazendo

e sair correndo para casa. Porque era insuportável continuar.

Eu me jogava na cama e apertava o edredom contra meu peito,

a sensação era que ele estava completamente aberto,

sem nenhum tipo de proteção e coisas poderiam escapulir dali.  

Doía muito e o cobertor me dava segurança.

Pouco depois, soube que isso se chamava angústia.

Esse é um trecho do livro Não Sou Uma Só : Diário de Uma Bipolar,

de Marina W. - Editora Nova Fronteira.

Trata-se de uma autobiografia que traz as alegrias e as angústias dessa jornalista,

que só descobriu ser bipolar depois de casada e mãe de dois filhos,

segredo guardado por ela durante mais de 20 anos.

O diagnóstico tardio, inclusive, é um dos principais problemas no tratamento.

Ainda é muito comum o Paciente ser visto apenas como depressivo quando,

na verdade, vai de um extremo a outro.

A transição abrupta entre as fases depressivas e maníacas

é chamada pelos médicos de virada de humor.

Os episódios de mania e depressão podem variar em dias, semanas ou até meses.

Os bipolares também têm fases de normalidade ”, afirma o Dr. Nicastri.

Durante a depressão, as sensações são de diminuição da energia,

redução ou até incapacidade de sentir prazer, melancolia,

desesperança e pensamentos pessimistas ou negativos,

que podem incluir a idéia de suicídio.

Os episódios de mania geralmente envolvem sensação aumentada de energia

e poder, aceleração da velocidade do pensamento,

diminuição da necessidade de sono,

idéias de grandiosidade e comportamentos desinibidos e pouco críticos,

que podem resultar em gastos excessivos, por exemplo.

Muito do que se faz nessa fase, os bipolares nem sequer sonhariam

em fazer no estado normal de humor.

Para desencadear uma crise não há motivos ou situações específicas.

O estopim pode estar relacionado ao estresse, tanto positivo quanto negativo.

Perder o emprego, separar-se ou mesmo casar-se

e receber uma promoção no trabalho

podem ser fatores com potencial para provocar uma crise de mania ou depressão.

Nos Pacientes em tratamento, o uso irregular

ou mesmo a interrupção da medicação

 são um fator importante para que novos episódios da doença

voltem a se manifestar ”, enfatiza o Dr. Nicastri.

Diagnóstico na Balança

Existe uma tendência de que, em uma mesma família,

haja várias pessoas com diagnóstico da doença,

o que sugere uma grande participação genética nesse transtorno.

Entretanto, ainda não há comprovações científicas.

Os fatores ambientais também interferem na manifestação do problema.

O estresse e a rotina agitada podem colaborar

para que os efeitos da doença sejam maiores ou menores ”, explica o Psiquiatra.

Hoje, o ritmo de vida é mais acelerado,

o acesso e o consumo de substâncias lícitas e ilícitas

que interferem no humor são mais fáceis, por exemplo.

Quanto mais cedo for feito o diagnóstico, melhor para o Paciente,

sua família e amigos.

O fato é que alguém que tenha depressão vai procurar ajuda porque se sente mal.

Porém, a pessoa que passa por crises de euforia sente-se muito bem

– até demais – para achar que esse estado inspire cuidados médicos.

Isso pode atrasar a procura por ajuda e, conseqüentemente, o tratamento.

É uma barreira explicar e convencer alguém

de que aquele estado de energia intensa,

por mais agradável que pareça, é uma doença,

por conta dos riscos a que a pessoa se expõe,

como a impulsividade que leva a comportamento sexual desinibido,

entre outros atos impensados.

Familiares e amigos podem ajudar o Psiquiatra nesses casos,

sinalizando comportamentos não habituais.

 Nos casos de gradação leve da doença, a chamada hipomania

– quando o paciente é tímido e se torna extrovertido, por exemplo –,

quem convive com a pessoa deve sinalizar ao médico

que normalmente ela não se comporta daquela maneira.

Entretanto, para o Paciente é difícil perceber

que essas mudanças no comportamento

são manifestações do transtorno, mesmo que em grau leve.

Embora a doença apareça mais frequentemente no fim da adolescência

ou início da vida adulta, crianças e adolescentes também

podem sofrer com esse transtorno.

Nos EUA, o número de diagnósticos de bipolaridade entre crianças e adolescentes

cresceu 40 vezes na última década.

A hipótese para esse aumento é a maior conscientização de médicos

sobre o transtorno ou ainda um possível excesso de diagnóstico,

em que uma criança mal-humorada pode ser tratada como doente.

Medicamentos e Terapia :

O Caminho para uma Vida Normal

Assim como uma série de outras doenças,

o transtorno bipolar não tem cura, mas controle.

É como ter hipertensão ou diabetes : A doença continua ali,

mas o paciente aprende a reconhecer sinais, controlar e conviver com ela,

enquanto leva uma vida normal.

Queremos que o paciente seja o gerente de sua saúde

para reconhecer uma estabilidade ou piora da doença,

além de tomar os remédios corretamente ”, esclarece o Dr. Nicastri.

Os medicamentos mais utilizados atualmente são

o lítio e alguns anticonvulsivantes,

pois mostram bons efeitos na estabilização do humor.

Algumas vezes, podem ser indicados também antidepressivos,

mas com ressalvas porque podem, em vez de trazer o Paciente

para um estado de normalidade de humor, induzir à crise de euforia.

Medicamentos conhecidos como antipsicóticos,

sobretudo alguns desenvolvidos mais recentemente,

têm sido empregados como estratégia para obter a estabilização de humor.

O lítio, primeiro estabilizador de humor, descoberto na década de 1970,

ainda é largamente utilizado.

Essa substância foi consagrada porque – além de tratar o transtorno bipolar –

é capaz de prevenir novas crises.

O problema é que se trata de uma substância potencialmente tóxica,

o que torna a monitoração da sua quantidade no sangue fundamental

para a segurança do tratamento.

Além dos medicamentos, a Terapia pode ajudar a pessoa a entender

que tem uma doença e a aceitar o tratamento.

É dar-se conta de como funciona o transtorno

e saber diferenciar o que é normal do que foge do controle.

| www.einstein.br | 26 de janeiro de 2016 |

Vazio Existencial

Sentir-se útil é algo de que todos precisamos

para a harmonia de nosso estado mental e físico.     

Acreditar que o nosso trabalho ou nossas atividades fazem alguma diferença

para as pessoas, apesar de todas as nossas limitações,

é necessário para a manutenção de nossa estabilidade interna.

O descompasso ocorre quando não nos reconhecemos realmente úteis

e quando percebemos que estamos perdendo o nosso tempo com ocupações

que poderiam ser realizadas por qualquer outra pessoa no mundo.

Vale dizer, quando sentimos que a utilidade daquilo

que fazemos mais parece um teatro

que justifica às pessoas que somos importantes

mas não nos traz essa mesma convicção íntima a respeito de nós mesmos.

Sentimos uma dor sufocada no peito, às vezes transmutada em vazio existencial,

quando temos de justificar posicionamentos que não condizem com aquilo

em que verdadeiramente acreditamos.

Choramos quando somos obrigados a usar máscaras para atingir objetivos

que não nos satisfazem plenamente,

pelo menos não do jeito como direcionados pela sociedade em que vivemos.

Largar tudo e viver como um nômade ?

Não, quem realmente busca a si próprio

não tem receio do trabalho árduo e da determinação e disciplina

necessários para realizar-se.

Embora nada de errado exista com quem precise passar por esse momento “ zen ”,

nessa incessante busca por si mesmo.

O que precisamos delinear é que o assunto é muito sério,

mal absorvido por inúmeras pessoas, deixando em cada um de nós

um certo vazio existencial, que pode desabar para a depressão.

Não se sentir útil, importante dentro do compromisso profissional que assumimos,

diante das peculiaridades intrínsecas a cada diferente ser humano,

e trabalhar apenas pelo dinheiro que se ganha no final do mês,

sendo até indiferente se esse é raso ou substancial,

faz com que nos apercebamos vendidos

naquilo que possuímos de mais belo, mais genuíno.

Sentimo-nos prostituídos em nossos talentos mais preciosos,

saindo do foco quanto àquilo que realmente

nos traz satisfação e motivação na vida.

Tudo para conseguir sobreviver, seja pagando o aluguel no fim do mês

( diante de consideráveis dificuldades financeiras ),

seja para manter o alto padrão de vida que acreditamos ser imprescindível

para a nossa felicidade.

Sentir-se vendido faz com que não alinhemos o nosso equilíbrio íntimo

com o nosso relógio interno e, com isso, muitas vezes,

o corpo nos mostra alguns sintomas.

Somatizamos em nosso corpo físico aquilo que nosso corpo mental

não conseguiu entender ou equilibrar.

Portanto, se vivenciamos um vazio existencial,

há de se perscrutar a causa dessa ocorrência

e procurar modificar a realidade.

Se deixarmos a bola de neve aumentar, uma hora a avalanche nos alcançará

e, talvez, mal conseguiremos levantar da cama,

vitimizando-nos com nossos próprios pensamentos desalentadores.

Que saibamos buscar ajuda no início de nossas dores internas,

quando ainda temos forçar para gritar, para pedir socorro.

Não esperemos que as pessoas adivinhem os nossos problemas interiores.

Não nos esqueçamos que, por mais aguda que seja a nossa dor,

usamos as máscaras sociais até para os mais íntimos.

Além disso, eles também têm as suas dores.

Quem não as tem ?

Que saibamos expressar a quem nos ama a dor que não se mostra aparente.

Que saibamos compreender a dor invisível de quem nos pede ajuda,

ainda que de maneira indireta.

Não subestimemos a dor da alma.

Ela também precisa ser tratada.

| Regiane Reis | Mestre em Direito Constitucional | 03 de fevereiro de 2016 |

Apego a bens materiais sinaliza

AUTOESTIMA em BAIXA

 

É importante reconhecer que a acumulação

não tem apenas a ver com juntar coisas;

ela envolve a ligação emocional com objetos.

Não existe uma maneira “ certa ” de lidar com este distúrbio,

mas é preciso muita compaixão e compreensão

para ajudar um acumulador a melhorar sua qualidade de vida.

Ter uma vida confortável e sem preocupações financeiras

é um desejo quase universal.

No entanto, a vontade exacerbada em ter roupas de grife,

equipamentos eletrônicos de última geração, produtos e serviços caros

e luxuosos não segue a mesma lógica e podem sinalizar um problema :

AUTOESTIMA em BAIXA.

O mal da sociedade moderna,

em que o status é valorizado pelo consumo e exclusividade,

atinge principalmente crianças e adolescentes,

segundo estudo feito nos Estados Unidos.

De acordo com os estudiosos, a AUTOESTIMA

é um fator essencial no apego aos bens materiais.

Crianças e jovens com baixa AUTOESTIMA valorizam suas posses

muito mais que as crianças confiantes.

Possuir coisas é um amuleto no reforço da autoestima.

Os bens materiais ajudam a neutralizar a ansiedade e as inseguranças

que sofremos em diferentes graus no dia a dia.

Quanto mais temos, desencadeamos nas pessoas sentimentos

que misturam admiração e inveja.

E este é o componente principal do narcisismo ”,

explica o Psicólogo e Psicanalista Claudio Vital. 

Valores invertidos
O estudo aponta que o apego a bens materiais,

como ursinhos de pelúcia, dinheiro e artigos esportivos,

é mais valorizado que estar com os amigos,

 ter sucesso nos esportes ou ajudar o próximo,

entre as faixas de 8 a 9 anos e 12 e 13 anos, mas cai a partir dos 14 anos,

quando os motivos para a diminuição da AUTOESTIMA

estão mais relacionados ao período de transformações do corpo

e valorização social entre amigos.

Um indivíduo que consegue ter sucesso passa a ser visto

como alguém com capacidade superior e por isso ganha o respeito do grupo.

Assim, os bens se tornaram a base para a aprovação

e para a autoestima ”, analisa Claudio Vital.

De acordo com o profissional, este comportamento explica

o motivo para que tantas pessoas busquem desesperadamente

mostrar sinais de riqueza aos outros, ainda que não possuam recursos.

Segundo o médico, o comportamento demonstra

pouco desenvolvimento pessoal e imaturidade.

Prevenção contra o NARCISISMO
Especialistas são unânimes em eleger o consumismo

como um dos grandes vilões da vida moderna.

Além de instabilidade financeira,

o mal pode interferir na saúde psíquica das pessoas,

levando os indivíduos a um quadro depressivo.

De acordo com Claudio Vital, os cuidados para evitar

o dano devem começar ainda na infância.

Ensinar as crianças que não podem ter tudo

evita que elas venham a se tornar adultos Narcisistas.

Segundo o Psicanalista, é comum ceder aos caprichos dos filhos

e confundir a atitude com amor.

No entanto, ele alerta que as crianças, na verdade,

pedem atenção e reconhecimento dos pais, ou seja,

algo que pode ser dado de forma natural e que não gera gastos.

Orientar e demonstrar carinho ajuda a desenvolver a autoconfiança

e consequentemente aumenta a AUTOESTIMA, segundo o profissional.

A manutenção do NARCISISMO das crianças vai refletir na vida adulta.

Educar é a melhor jeito de não formar um adulto arrogante,

com ego inflado ”, finaliza Claudio Vital.

| Revista Minha Vida | 30 de novembro de 2015 |

ANTIDEPRESSIVOS SEM TERAPIA NÃO TEM EFEITO

As relações entre Literatura e PsicAnálise foram alvo de constantes inquietações

ao longo das pesquisas do Pai da PsicAnálise pelo despertar do inconsciente.

Em 1908, Sigmund Schlomo Freud escreve

Escritores Criativos e de Devaneios ”,

artigo célebre sobre os mistérios por trás da expressão em palavras.

A busca pela satisfação dos desejos inconscientes, mediado pelo mundo da fantasia,

parece ser uma busca constante do Artista,

característica semelhante com alguém que devaneia.

Se há uma aproximação do Artista com o devaneio,

também há um distanciamento na realização da Obra de Arte,

por justamente ser uma ação na realidade.

Daí porque Sigmund Schlomo Freud admira os escritores criativos :

Conseguem suavizar o caráter egoísta dos seus devaneios,

através de alterações e disfarces, provocando prazer pela estética formal

de suas fantasias representadas.

Escritores Criativos e de Devaneios ”, para Sigmund Schlomo Freud,

realiza a sua obra a partir de uma compreensão interna acerca

de suas fantasias mais arcaicas.

O despertar ( insight ) se torna possível quando uma experiência

no presente relembra o Escritor de alguma lembrança anterior.

Esse movimento muito se assemelha com o brincar na infância,

nas palavras de Sigmund Schlomo Freud :

O que se cria então é um devaneio ou fantasia,

que encerra traços de sua origem a partir da ocasião

que o provocou e a partir da lembrança.

Dessa forma o passado, o presente e o futuro

são entrelaçados pelo fio de desejo que os une ”.

Em seu artigo notável sobre “ Moisés de Michelangelo ” escrito em 1914,

Sigmund Schlomo Freud indica que o artista busca recuperar aquilo

que nele produz o impulso criativo.

Conflitos com a peculiaridade de possuírem em seu cerne o conflito edípico

não escapam de participar do ato criativo,

sendo a realidade psíquica mais uma característica a ser expressa no processo criativo.

Segundo essa perspectiva, as Artes surgem como

possibilidade de criar objetos renunciados.

Ao concretizar o objeto ausente no fazer artístico,

não somente o Artista recupera o objeto perdido,

como também, por meio da experiência estética,

possibilita a identificação dos demais sujeito.

Ao se permitirem afetar pelas emoções despertadas em uma

profunda experiência estética, algo da ordem do sagrado ronda a cena.

As inquietações são mais do que ingredientes imprescindíveis para os Escritores e Artistas,

que buscando dar forma e se aproximar do inconsciente,

buscam contornos muito próprios no seu processo criativo particular.

No mistério que continua, a pergunta que fica é :

Qual é o rumo da inquietação de cada um ?

| Fernanda Fazzio | Psicanalista Psicóloga | Escritora |

Velhice e Psicanálise

Processos do sistema Inconsciente são atemporais, isto é,

não são ordenados temporalmente, não se alteram com a passagem do tempo,

não tem qualquer referência ao tempo, dispensam pouca atenção à realidade.

Estão sujeitos ao princípio do prazer, seu destino depende apenas do grau de sua força

e do atendimento às exigências da regulação – prazer – desprazer.

Os processos Inconscientes se tornam cognoscíveis

para nós sob as condições de sonhos e neurose ( Sigmund Schlomo Freud ).

Consequentemente, o Inconsciente não tem idade,

o sujeito que se manifesta no período aonde os hiatos começam a se formar,

espaçando o que é, do que foi, é o mesmo da sua juventude.

Ao observar nos idosos suas manifestações posso afirmar,

que quem habita aquele sujeito não é quem sua idade apresenta.

As lembranças da sua infância e mocidade são as que ficaram gravadas,

seus delírios são suas verdades, aquilo que os sustentaram como sujeitos.

Como explicar isso, a não ser pelo fato de que,

se não houvesse essa crença já estariam mortos em vida.

O que também chama a atenção na velhice é a incapacidade de reter o momento presente,

desde os ais banais e corriqueiros, como o que comeram naquele dia,

mas conseguem lembrar com detalhes palavras, canções, brincadeiras,

os ensinamentos de seus pais, com tanta nitidez,

que vivem esses momentos com emoção e nostalgia.

Isso me reporta aos ensinamentos de Lacan, onde vemos que o eu surge como uma

cristalização ou sedimentação de imagens ideais,

equivalente a um objeto fixo com o qual a criança aprende a se identificar.

Outras imagens ideais são igualmente assimiladas pela criança,

refletidas pelo outro parental, que são estruturadas linguisticamente.

O " Eu " é um lugar de fixação e de ligação narcisística.

Estas são as imagens e denominações de si mesmos que os velhos retêm

quando pouco resta em termos do presente, é isso que lhes dará sustentação

e provará a eles mesmo que ainda existem.

Ao acompanhar uma mulher de 95 anos pude perceber que o desejo ainda a mantém,

desejo de amar, de ingerir bons alimentos, de se enfeitar, de falar sobre sexo,

crendo ainda que é a mesma pessoa e, certamente é, de quando tinha 10, 20, 30 anos.

Pois apesar das incapacidades motoras e funcionais que a afetam,

ainda crê que viver é importante, pois tem suas lembranças, suas histórias.

Um dia ao perguntar-lhe porque falava continuamente, repetindo os mesmos casos,

de cenas outrora vividas, respondeu-me,

“ Porque é a única coisa que me resta : falar ”.

|  Maria do Carmo Mucciolo | Psicanalista | 01 out 2015

ESPERANÇA  e  PSICANÁLISE

‘ Se a esperança é a ultima que morre, que ela nos acompanhe até o fim ! ’

A esperança deriva de uma capacidade humana de acreditar sempre nas raízes do amor.

Vista de ângulo depreciado pode chamar-se " Otimismo ".

No entanto, a sobrevivência da Humanidade, ante tantas intempéries, tantas guerras,

tantos desatinos coletivos, leva a se pensar que a esperança nunca sucumbiu totalmente

e viabilizou reações de Vida e de reconstrução.

Talvez, no percurso da História da Humanidade,

contabilizem-se mais lágrimas que sorrisos !

Mais cicatrizes do que germinações.

Mas, apesar de todos os pesares, aqui estamos, inaugurando mais um ano,

querendo acreditar que a esperança supere o medo e a insegurança.

Sigmund Schlomo Freud postulava que a libido seria a grande reação

ao retorno ao inanimado, e dela emergiriam todas as fontes do amor

e da energia para defender este amor.

E é este mesmo amor que protege o bebê no útero materno

e que acaba por vencer todas as outras tendências, também humanas,

para a desagregação e destruição.

Se a esperança é a ultima que morre, que ela nos acompanhe até o fim !

| José de Matos | Presidente da SPRJ |

CORAÇÃO  e  RAZÃO

A Psicanálise sugere que, na formação do psiquismo, éramos inicialmente,

um amontoado de imagens arquivadas cravejadas de sentimentos.

Cada imagem tinha sua carga de energia e este conjunto de energias deslizavam,

misturando-se entre si configurando uma estrutura basicamente afetiva.

Com o tempo, com o gradual amadurecimento permeado pela presença materna,

estas energias vão conseguindo se fixar com maior estabilidade às imagens

começando a constituir uma estrutura mais estável, mais consistente.

De um controle pelo afeto, vai-se iniciando um controle pelo entendimento.

A estrutura vai ganhando uma configuração ideativa.

 O incrível espetáculo do desenvolvimento,

revela a formação de uma mente que começa a entender significados.

O balbucio de um som que traz a Mãe para perto,

vai tomando a forma de uma palavra : Mamãe.

Com este novo formato, vem toda uma imensa significação

que traduz tudo que veio significar para a Humanidade esta palavra universal : Mamãe.

 Coincidentemente, o coração é o primeiro sinal anatômico que, muito cedo,

é percebido por suas batidas galopantes nos exames obstétricos.

O coração tem predominado no nascimento das ideias e

a ação terapêutica da Psicanálise tem-se deslocado para o enfoque da atitude empática que,

pela via do afeto, age como principal instrumento na intervenção

e tratamento de transtornos estruturais da mente.

|  José de Matos  |  Presidente da SPRJ  | 17dez2015

Renúncia

É frequente os Psicanalistas serem procurados para tratar das dores do amor.

Amantes impossíveis, paixões descabidas e sonhos frustrados

que certamente nos levarão a derrota exigem que tenhamos capacidade para renunciar.

Toda renúncia pede determinação.

É preciso capacidade de lidar com a enorme dor provocada pela falta

e perda de uma satisfação.

A ideia é substituir um prazer imediato por outro, longínquo;

mas a recompensa por esse sacrifício, às vezes, demora e não está garantida.

Quem renuncia escolhe ter um buraco dentro de si.

A renúncia é um processo.

Costuma ser o fim de uma longa jornada – feita de idas e vindas,

ponderações e desespero – que leva à conclusão de que

nem tudo que é bom faz bem.

Não há fórmula para realizá-la, durante o trajeto cada um

se descobre e, simultaneamente, inventa um caminho singular.

Quando um amor nefasto surge é preciso que a gente se veja

como um dependente químico em tratamento,

alguém que precisa se conhecer e se fortalecer para largar a droga.

| Luciana Saddi | Psicanalista | Membro da SBPSP |

Conceito de Ego na PsicAnálise

 

Para começar, o “ Ich ” alemão usado por Sigmund Schlomo Freud,

melhor traduzido para “ Eu ”,

ganhou na tradução para o inglês a denominação de “ Ego ”.

Esta denominação latina, ganhou força, na medida que foi deixando de significar

“ personalidade ” para ir significando uma instância psíquica específica, com funções definidas.

Apesar disso, autores e linhas Psicanalíticas diversas defendem o “ Eu " inicial.

Esse “ Ego ” não tem uma localização anatômica definida.

Não se pode localizar no cérebro, até agora, um local onde se situa o “ Ego ”.

Talvez um entrecruzamento de funções, por concentrações energéticas,

possa ter expressão em imagem, constituindo localizações que se aproximem

do que se define como “ Ego ”.

Quer dizer, permanece aquela diferença entre mente e cérebro.

Numa visão voltada para o fenômeno psíquico,

a mente no Homem seria um complexo de funções específicas

destinadas a apreender a realidade e torná-la acessível em termos de compreensão

e ação para o Homem e o cérebro seria o substrato anatômico

necessário para a realização de toda esta operação.

Numa figuração comparativa bastante precária,

poderíamos dizer que o Amor é uma configuração de ações

e sentimentos de natureza agregadora de impossível figuração gráfica

mas que encontra expressão anatômica eficiente no coração.

Desta forma, o coração estaria para o Amor

como o cérebro estaria para a mente sem, obrigatoriamente, um ser o outro.

Bastante complexo, não ?

Pero que las hay las hay

parafraseando o provérbio de origem galega sobre a existência das bruxas.

|   José de Matos | Presidente da SPRJ |

O Conceito de Introjeção e a Transferência

[ Capítulo 2, Parte 3 ]

 

Caminhando ainda mais na tentativa de compreender

uma certa Metapsicologia da Transferência,

Sándor Ferenczi lança mão da ideia de que toda Neurose

é uma fuga diante dos Complexos Inconscientes ".

Desde Sigmund Schlomo Freud, sabemos que a Neurose se estabelece

como a formação de algo que substitui um conflito

que não pode ser levado à cabo pela Consciência.

Assim, o processo se instaura através de um ato de defesa

que procura atenuar as representações incompatíveis

com o Eu transformando-as de maneira que percam seu poder de excitação.

Dessa forma, acompanhamos a formação de quadros sintomáticos histéricos

a partir da conversão do afeto em inervação somática

e a formação da Neurose Obsessiva através do estabelecimento

de um mecanismo de permanente deslocamentos afetivos

que conseguirão parcialmente amenizar a dor psíquica,

instaurando um quadro compulsivo sintomático.

O que Sándor Ferenczi é levado a afirmar é que mesmo que o sujeito

se defenda através de mecanismos como os descritos acima,

mesmo assim lhe restará sempre uma quota de afetos que,

não alocadas, se mostrará sempre “ Livremente Flutuante

exigindo portanto resposta.

" É a essa quantidade de excitação ' residual ' que se imputará

a disposição dos neuróticos para a Transferência;

e nas Neuroses sem sintoma permanente de conversão é essa libido insatisfeita,

em busca de um objeto, que explica o conjunto do quadro patológico ".

Assim, o próximo passo que Sándor Ferenczi

é o de estabelecer um mecanismo padrão que rege toda a constituição do psiquismo

preponderantemente neurótico, que se revelará como um movimento permanente

de estabilização desses afetos flutuantes através

de um processo que visará alocar o excesso em questão através de sua ligação

com os objetos próprios ao mundo externo.

Diferentemente do Paranóico que projeta para fora

de seu eu os afetos que lhe são pertinentes,

" o Neurótico procura incluir em sua esfera de interesses

uma parte tão grande quanto possível do mundo externo,

para fazê-lo objeto de fantasias Inconscientes ou Conscientes “.

A esse processo de formulação do mundo fantasístico do Neurótico,

notadamente construído através de sua relação

de apreensão dos objetos do mundo externo,

Sándor Ferenczi dá o nome de " Introjeção ”.

O conceito de Introjeção, como podemos notar,

nasce bastante próximo da ideia que Sándor Ferenczi

tem do próprio mecanismo de Transferência.

Aqui, quase que como sinônimos, Transferência e Introjeção

acabam por complementarem-se.

O excesso afetivo que não deu lugar a um processo de formação sintomática

será ele próprio encarregado de chamar para si

a ligação das representações do mundo externo.

A ideia de Introjeção implica em um “ botar para dentro "

onde o que marca sua característica peculiar

é a própria maneira como isso se dá :

Introjeta-se transferindo o interesse afetivo flutuante ( interno )

para as representações do mundo externo de maneira

a fazer com que elas pertençam ao próprio eu.

“ O Neurótico está em perpétua busca de objetos

de identificação, de transferência; isto significa que atrai tudo o que pode

para sua esfera de interesses, introjetando-os ”.

Sándor Ferenczi mostrará que por conta da instauração

de um permanente circuito introjetivo,

capaz de estabelecer constantes ligações psíquicas

entre o eu e o mundo externo,

o sujeito acabará sofrendo por um excesso de ligações

que acabarão por constituí-lo como Neurótico.

Na Paranóia, em contrapartida, o que ocorrerá é a diminuição do Eu,

onde o sujeito, ao invés de introjetar, projetará,

num processo eminentemente defensivo,

onde fica claro seu desinteresse e inaptidão para suportar seus próprios afetos.

" O ' Ego ' do Neurótico é patologicamente dilatado,

ao passo que o Paranóico sofre, por assim dizer, uma contração do “ Ego ”.

A partir das ideias de Introjeção e Projeção,

mecanismos que podem ser apreciados com mais exagero respectivamente

na Neurose e na Paranóia, Sándor Ferenczi trabalha a ideia

de uma certa ontogênese do psiquismo baseada na formulação

de uma “ Projeção Primitiva ” e de uma “ Introjeção Primitiva ”.

Para tal, imagina-se que o recém-nascido,

habitando um mundo monista por excelência,

portanto isolado em suas experiências psíquicas de qualquer percepção

de uma exterioridade, seria a partir de um determinado momento

levado a reconhecer a “ malícia das coisas ”,

isto é, a reconhecer certas representações que não lhe são compatíveis

ou suportáveis e que, por conseguinte

deverão ser expulsas de sua interioridade.

O que se sucederá, segundo Sándor Ferenczi,

é que o recém-nascido será levado a expulsar de si tais representações

incompatíveis realizando então uma espécie de “ Projeção Primitiva ”,

mecanismo esse responsável por inaugurar ‘ um dentro

e um fora ’ no aparelho psíquico.

Nem tudo, dirá Sándor Ferenczi, no entanto, se deixará expulsar.

Nem tudo será expulsado e haverá sempre representações

que farão imposição ao sujeito exigindo-lhe resposta.

Assim, se o aparelho ruma em constituir-se como algo

que deverá responder por uma singularidade,

deverá portanto responder à essa exigência interna de maneira que possa utilizar-se

das representações do mundo externo a fim de incluí-las

em sua esfera de interesses e assim reduzir o desprazer interno.

Trata-se aqui, também de um movimento inaugural,

capaz de estabelecer um mecanismo que será a própria maneira

de funcionar do psiquismo daí por diante :

Instaura-se portanto, a introjeção, através de uma “ Introjeção Primitiva ".

lnstaurada a Introjeção, ou seja, instaurada a capacidade do sujeito

poder ligar-se ao mundo externo através de um processo

que constitui sua singularidade, o que torna-se viável,

concomitantemente, é a realização do Circuito Transferencial.

A partir de então, o sujeito aprenderá a amar

e a odiar de acordo com seu modelo inicial ( auto - erótico ) que o levou a introjetar.      

“ O primeiro amor, o primeiro ódio realizam-se graças à Transferência :

Uma parte das sensações de prazer ou de desprazer,

auto - eróticas na origem, deslocam-se para os objetos que as suscitaram.

No início a criança só gosta da saciedade,

porque ela aplaca a fome que a tortura

- depois acaba gostando também da Mãe,

esse objeto que lhe proporciona a saciedade.

O primeiro Amor Objetal, o primeiro Ódio Objetal constituem,

portanto, a raiz, o modelo, de toda Transferência posterior,

que não é por conseguinte, uma característica da Neurose

mas a exageração de um processo mental normal.”

Sándor Ferenczi

| Carlos Mario Alvarez | 02 nov 2015 |